LÍDERES EXECUTIVOS E SEUS MONGES : Uma reflexão sobre o livro “ O Monge e o Executivo “


    Por: Marcelo Homem de Mello*(2013)

De certo, o livro é um incontestável sucesso de vendas por todo o mundo, autentico “Best Seller”. Intriga-me o fato de após tê-lo lido, e relido algumas vezes, não consiga nutrir pelo referido, o mesmo apreço que tantos  nutrem pelo referido livro. Sou dos que lêem livros de verdade, Miguel de Cervantes (Don Quixote), Willian Shakespeare (A Tempestade e Romeu e Julieta), Mika Waltare (O Egípcio) e tantos outros da literatura clássica que me são referência de bons livros. Em todos eles, encontro verdadeiras lições de Liderança, Governança, Gestão de Pessoas, Planejamento Estratégico, Competências Organizacionais de Primeira Grandeza, Autocontrole, Trato com Equipes, Habilidades Interpessoais, Condutas e Ética, Coração e Paixão e por aí vai a coisa. Dependendo da leitura e interpretação que se dê, um solitário Don Quixote, pode ser um bom exemplo de papel de Líder, e um Romeu e Julieta, um excelente exemplo de superação. Espadas, escudos, armaduras, lanças e armaduras podem se transformar em ferramentas de liderança. A questão toda é essa; boa leitura, com foco adequado, vira lição de vida e exemplos para se dispor. Na literatura acadêmica e corporativa moderna não é diferente. Como não ler e reler o professor Décio Pignatari (Linguagem e Comunicação ou Contracomunicação), por vez chego a pensar no Professor Décio, como cavaleiro solitário, empunhando um megafone tal qual a lança de Quixote. Como não refletir sobre Daniel Goleman (Trabalhando com a inteligência Emocional), e pra finalizar dentre os meus mais recentes, Thomas L. Friedman (O mundo é plano). Obviamente que um   ou outro Mauricio de Souza também esta presente de vez em quando na minha vida (Turma da Mônica), consumo ainda umas boas palavras cruzadas quando me é permitido, sim, aquelas que se encontram nos periódicos largados na sala de espera dos consultórios médicos.  Continuo intrigado com o sucesso dos diálogos enfadonhos de O  Monge e o Executivo!

Nas ultimas semanas, forçado pelo Professor Barros, MBA de Liderança, tenho pesquisado, lido, assistido, comentado sobre o livro, tentando sorver nos outros as respostas para o sucesso do livro. Uma verdadeira luta para me  livrar de pré-conceitos quanto à obra de Hanter. Esforcei-me para adquirir um ponto de vista mais positivista, universal, afinal de contas o livro é sucesso em todo o planeta, menos na minha singela biblioteca pessoal. É bem verdade que as categorias literárias Autoajuda e Esoterismo, onde se enquadra a obra em questão, não me desperta qualquer curiosidade, não me são palatáveis em nenhum contexto, forma ou conteúdo. Considero-os  armadilhas para despreparados, emocionalmente sensibilizados ou aqueles que buscam explicações no inexplicável. Não vejo em mim um “cético” de carteirinha, tão pouco um São Tomé, apenas gosto de análises bem estruturadas, analogias que desafiem sem me forçar a acreditar, que me deixem livre para concluir o que bem entenda, não me forcem dogmatismos ou pragmatismos.  Deixem-me pensar! Sou capaz de tirar minhas próprias conclusões, analisar e pesar atitudes, ter minha própria crença.  A final de contas ” Yo no creio em brujas, pero que las hay, las hay”.

Reconheça em alguns Autoajuda e Esotéricos, um alento para almas atormentadas, que momentaneamente se apóiam nestas obras para minimizar agruras do destino, apenas isso.  Acreditei     ser     advindo     daí,  a minha “má vontade” com monges, executivos, religião e negócios misturados no mesmo “balaio de gatos”. Não me desce a idéia de fundir estes personagens, tão pouco a teoria pura e simples de uma liderança servidora, isolada do mundo real e factual voltado para resultados. Em minhas andanças e consultorias, experimentei muitas religiões, conhecendo algumas bem a fundo, igualmente conheci executivos,  alguns Top 10 no Brasil, daqueles que ganham em um mês, o meu salário de um ano. Nunca neste cenário encontrei harmonização entre essas duas figuras, entre estes dois ícones simbólicos do livro, monges e executivos. Todos os executivos que conheci, sabiam separar muito bem estas questões, questões da alma e questões organizacionais. Alguns dos líderes que conheci, tinham direcionamento para pessoas, não só para resultados, já estavam de olho nas tendências mundiais neste sentido. Contudo, nunca conheci nenhum com inclinações apenas espirituais, ou que regesse sua organização fundamentado nestes princípios. Conheci um padre cantor, líder em vendagem de CD´s pelo Brasil, um verdadeiro milagre de vendas. Nem este escapou do direcionamento para resultados, pois com o dinheiro dos CD´s e DVD´s é que sua obra cresce e se populariza, seu templo foi erguido com dinheiro da mesma fonte, seu web site é campeão de vendas on-line, e na mídia televisiva reforça seus produtos. Conheci também outros religiosos que por uma graninha a mais, espantavam qualquer “capeta” de dentro de quem quisesse se aventurar. Recomendo ainda uma busca no Google, um site chamado “E-god”, que garante pra mim, monges têm seu lugar próprio, suas opções e escolhas são sutis, específicas, peculiares aos seus votos, aos quais tenho grande simpatia e respeito. Executivos por sua vez, pelo menos os que conheci, que ostentam extraordinário sucesso em seus segmentos, são pessoas que foram talhadas a ferro e fogo. Diante de oportunidades não titubearam, diante de problemáticas insolucionáveis atuaram com prontidão e exatidão.

Verdade que, eventualmente, deixam “corpos” pelo caminho. Não são muito popularescos, e não devem mesmo o ser, despertam sentimentos não tão puros quanto os monges, mas são bem sucedidos em suas práticas, metas, desígnios e resultados. Colecionaram perdas, é claro, quase que na mesma medida do seu sucesso, e tiveram de aprender a lidar com elas. Aprenderam, choraram, foram chamados às suas consciências de seres humanos, procurou a luz no fim do túnel, a maioria das vezes chamou para si as responsabilidades e arcaram com o ônus das mesmas. Liderança é um exercício diário, ácido como vinagre, solitário como um exílio. Em determinados momentos, Líderes e executivos abrem mão de sua crença e fé, abrem mão de sua família, de seus amigos, de sua saúde, de qualidade de vida, de fazer a coisa certa. Fazer a diferença é isso, é a diferença dos preparados e dos incautos, o gosto amargo de vinagre na boca é o incentivo para continuar decidindo o destino de muitos, assumindo riscos, somando perdas em função da preservação do macro. Sem sombra de dúvida, liderar é uma posição deveras delicada. Poucos  têm estrutura para arcar com tantos ônus que a posição exige. Todavia não passam  incólumes por tudo isso. Pagam a moeda de ouro ao ” barqueiro das almas” . Alguns encontram alento e sustentação em  bônus  vultuosos, benefícios mais que vantajosos, status e posicionamento social que despertam a inveja e sentimentos mesquinhos de todos a sua volta. São vistos como exemplos. Exemplos de que? De status, de perdas, de ascensão social, de desamor, de desunião, de que afinal são exemplos a final? Quase  tinha me esquecido, são exemplos de sucesso corporativo, estão na lista dos dez empresários mais bem sucedidos do momento, são responsáveis por conduzir organizações a realizações Homéricas, colossais, dignas de admiração. Empregam uma grande quantidade da mão de obra disponível, dão emprego há milhares de trabalhadores, fazem a economia girar e são reconhecidos por esta razão. Lá no topo do Monte Olimpo, onde já alcançaram todas as recompensas que o “mundo business” pode ofertar, começam a se questionar das verdadeiras razões para aquilo tudo; Onde de fato esta minha família, minha esposa, meus filhos e meus amigos? Cheguei até aqui, conquistei tudo que pode ser conquistado, exceto os  incomensuráveis efeitos do tempo que não pude controlar, que me resta?  Creio que foi nestes questionamentos que o monge tem que brotar de dentro do executivo.

É aqui que algum sentido começa a aparecer, e a autoajuda pode ter outro significado, até mesmo migrar de categoria, a qual vou batizar aqui de Introspectiva e Renovadora.  Seria uma nova categoria de obras literárias. Uma categoria para quem quer refletir analiticamente sobre seus passos, adotar uma visão diferenciada de presente,  passado e futuro sem culpa ou ressentimento, pois o que está feito, feito está. Nesta nova categoria, monges, bispos, pastores, párocos, coroinhas, executivos, gerentes, líderes e empregados, seriam  apenas gente. Gente sem rótulo e com vontade de fazer as coisas de forma diferente, apenas isso. Com idéia de tomar atitudes diferenciadas,  procurado rever rotas, estabelecer alternativas para seus atos e atitudes,  rever processos e desafetos. O Monge e o Executivo consiste em uma leitura “aeradora”, inspiradora de mudanças e atitudes. Neste momento, entendo que o livro se insurge contra as Emergências da Modernidade. Nos  faz refletir sobre o preço que desejamos pagar. Que perdas estamos dispostos  a colecionar para alcançar o sucesso? As conquistas  vindouras ou passadas , vão compensar o sacrifício para tal? Meu investimento pessoal, profissional realmente está sendo bem aplicado, renderá os frutos que desejo? Sobretudo, estes frutos que tanto almejo, tem algum real significado, agregam efetivamente ou são apenas símbolos ocos, sem substancialidade? Neste exato momento invoco para que o monge seja incorporado no executivo. As perspectivas e vislumbres analíticos, característicos dos monges começam a me fazer algum sentido, quando se transformam em habilidades e comportamentos a se adquirir por qualquer pessoa, executivo ou não. Não que um monge seja diferente de um executivo no tocante a perdas. Ele também as tem, as acumula e coleciona. A questão é como ele mitiga as perdas, aprende a lidar com as mesmas e sobretudo no que as transforma com o tempo. A resignação do monge se transmutando na resiliência do executivo. Atitudes mais dignas, mais humanas e menos sádicas no sentido do cumprimento do dever, de metas e de ações produtivas. Esta relação esta mudando no mundo inteiro. É um caminho sem volta a humanização das relações de trabalho. Uma análise mais aprofundada da questão, deve encontrar apoio e subsídios profundos, nas distorcidas e antiquadas legislações sobre o assunto. A carta magna das relações trabalhistas brasileiras, Consolidação das Leis do Trabalho CLT, rege os papeis de empregado e empregador, apresenta distorções e equívocos que perduram de muito. As distinções do papel de empregado e empregador, são relações desequilibradas e pouco harmoniosas, não tão humanas quanto se pense. Relações harmoniosas devem ser conquistadas em base de confiança mútua, respeito e comprometimento das partes envolvidas. Desconheço qualquer outra forma, em que empregado e empregador sejam bem sucedidos em desenvolver relações saudáveis. Claro, que para manter tal vínculo produtivo e saudável, ambas as partes têm de estas suscetíveis, desejosas de tal equilíbrio. Nem sempre estão. Tal qual a relação existente entre um sádico e um masoquista, um não existe sem o outro, um bom empregador  não existe sem um bom empregado. Relações humanas, são complicadas de nascença, é uma questão de DNA, de adversidade  natural, de pluralismo. Todos nós devemos lutar contra a “coisificação” do ser humano, pode ser este o legado desta geração de Líderes e de seus Liderados. Direitos e deveres, relações lucrativas ou não, perdas ou ganhos,sucesso e insucesso, tudo faz parte do jogo jogado. Quem joga, já conhece as regras e deve estar disposto a aceita-las ou não.

A escolha é sempre sua.                                              .

Eu por exemplo, resolvi decodificar O Monge e o Executivo, optei por entender melhor o autor e sua obra, captando a essência, refletindo e dando a minha leitura, a minha interpretação e personalização do contexto que Hanter aborda para o livro.  Não  abandonei o “ranço” pelo livro ou pela categoria que o mesmo se encontra, mas de certo escolhi tirar um bom proveito de algo que me era totalmente intragável. Creio ser este o segredo das coisas, um entendimento amplo de tudo. Nada de pontos de vista unilaterais, corrompidos ou   maculados pelo pré-conceito. Um olhar crítico, por um ponto de vista nem tão ortodoxo assim, pode fazer toda a diferença do mundo, pode ser determinante para sucesso ou insucesso.

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